1. O primeiro sorriso
Capítulo 3 — Um sorriso no dia comum
Elisa chegou na segunda-feira e discutiu com um mapa.
O mapa não era exatamente um mapa. Era um painel com o desenho de uma cidade imaginária que usaríamos numa oficina para crianças. Cada bairro recebia o nome de um gênero literário: o bairro das aventuras, a praça dos poemas, a avenida dos mistérios. Eu tinha achado a ideia interessante até alguém decidir imprimir tudo em um tamanho que não cabia na parede destinada à atividade.
Encontrei Elisa em pé diante do painel, segurando uma ponta da cartolina. Mara segurava a outra.
— Se virar de lado, cabe — Elisa disse.
— Se virar de lado, os nomes ficam deitados — respondi.
Ela olhou para mim pela primeira vez.
— Então os livros dormem. Não me parece uma tragédia.
Mara soltou uma gargalhada.
— Elisa, esse é Caio. Um dos nossos sócios. Caio, esta é Elisa. A pessoa que vai tentar trazer um pouco de alegria ao setor de relacionamento.
— Não me prometeram uma missão tão difícil — ela disse.
Eu deveria ter dado as boas-vindas de modo convencional. Em vez disso, fiquei olhando para o mapa e calculei se o painel caberia na parede com uma margem de quinze centímetros.
— Dá para cortar a borda — sugeri.
— Dá — Elisa concordou. — Mas aí perdemos o rio.
— Que rio?
Ela apontou para uma faixa azul quase escondida atrás da mão de Mara.
— Esse. Liga todos os bairros. Foi a única parte de que as crianças gostaram de verdade no teste.
Era uma informação que eu não tinha.
— Então mantemos o rio — decidi.
— Ainda bem. Eu estava preocupada com o destino da população ribeirinha.
Não ri de imediato. Mara percebeu e riu por mim. Só então me rendi.
Elisa tinha um jeito de falar que misturava cuidado e provocação. Não procurava a aprovação de quem estivesse na sala antes de apresentar uma ideia. Também não parecia interessada em transformar toda discordância em disputa. Às vezes dizia algo completamente sério com uma expressão que fazia os outros demorarem a perceber a brincadeira.
Naquele primeiro encontro de trabalho, minha impressão foi simples: tínhamos contratado alguém inteligente.
O resto veio depois.
2. Quando as brincadeiras mudam
Capítulo 6 — A linguagem das brincadeiras
Numa quinta-feira, trabalhamos até tarde preparando uma feira de leitura. Mara saiu antes para buscar o filho. Duas pessoas da equipe terminaram a organização do auditório, e eu fiquei revisando a escala dos voluntários. Elisa conferia a lista de inscrições no computador ao lado.
A determinada altura, fechou a tela.
— Posso fazer uma pergunta inconveniente?
— Você faz outras?
— Alguma vez você desliga essa cabeça?
— Quando durmo.
— Duvido.
— Tenho sonhos muito eficientes.
Ela encostou na cadeira e me observou por um instante que pareceu maior do que foi.
— É sério. Você fica fazendo contas das pessoas também?
— Contas?
— Somando tudo o que elas dizem. Tentando descobrir o que estão querendo dizer por trás.
Demorei a responder. Eu poderia negar, mas ela tinha acabado de descrever um hábito que meus amigos mais antigos conheciam bem.
— Às vezes.
— Deve dar um trabalho danado gostar de alguém assim.
Meu primeiro impulso foi perguntar por que usara o verbo gostar. O segundo foi perguntar se havia alguém específico na cabeça dela. O terceiro, que consegui executar, foi fechar o arquivo aberto à minha frente.
— Dá mais trabalho quando a pessoa não é clara — respondi.
— E se ela ainda não souber explicar?
— Aí conversamos até descobrir.
Elisa riu, mas sem a alegria de costume.
— Você acha mesmo que toda pergunta tem uma resposta pronta em algum lugar, só esperando você procurar direito?
Eu ia fazer graça. Não fiz.
— Acho que conversar evita muita coisa ruim.
— Evita — concordou. — Mas às vezes a gente precisa de silêncio para descobrir o que vai dizer.
O celular dela vibrou. Elisa olhou a tela, disse que precisava ir e começou a guardar as coisas. Eu me ofereci para levar uma pilha de materiais até o depósito. Ela aceitou. Caminhamos até a saída falando sobre a feira. Antes de ir embora, puxou do bolso uma das etiquetas que sobraram da organização e colou no meu caderno.
Uso excessivo do raciocínio. Manusear com cuidado.
— Falta assinatura — reclamei.
Ela pegou a caneta da minha mão, desenhou uma estrela torta e devolveu.
— Agora é oficial.
Eu passei dias sem tirar aquela etiqueta.
Naquele tempo, ainda achávamos que certas perguntas podiam ser feitas quase por brincadeira.
Numa tarde em que conversávamos sem pressa, Elisa deixou de lado o assunto que nos fizera parar perto da janela.
— Você se apega às pessoas, Caio?
— Me apego, sim — respondi. — Mas sei separar as coisas. Se alguém me disser com clareza o que quer, eu consigo aceitar. Posso gostar, sentir falta, ficar triste. Só não preciso ficar insistindo numa história que o outro já decidiu encerrar.
Ela me observou como se estivesse verificando a firmeza daquela resposta.
— Eu não me apego.
— Nunca?
— Não é muito do meu feitio — disse, com um sorriso satisfeito.
— Então você leva vantagem.
— Talvez eu só me conheça melhor.
Ri. Naquela tarde, achei que tinha aprendido uma informação importante sobre nós dois: eu sabia me apegar e ela sabia evitar isso. Não considerei que uma pessoa pode se conhecer bem e ainda se surpreender quando alguma coisa nova acontece.
3. A saudade entre duas portas
Capítulo 8 — Os dias em que era ela
“Às vezes, você chega ao meu pensamento antes de eu dormir e já está nele quando desperto.”
— Elisa
Passei uma terça-feira inteira sem escrever para Elisa.
Não foi uma experiência, não foi castigo e, principalmente, não foi uma tentativa de descobrir se ela sentiria falta. Às oito, um fornecedor nos comunicou que metade do material de uma oficina chegaria com atraso. Às nove, uma instrutora ligou com febre. Ao meio-dia, eu ainda estava de pé diante do quadro de prazos, segurando o mesmo café frio da manhã.
Resolvi coisas. Algumas bem, outras apenas a tempo. Quando o telefone finalmente ficou quieto, o relógio marcava quase seis.
Foi então que encontrei a mensagem dela.
Não perguntava sobre o contrato, nem cobrava qualquer favor. Queria saber como eu estava. Disse que me vira passar duas vezes pelo corredor sem fazer uma de nossas brincadeiras e que o dia parecera estranho por isso.
Fiquei olhando as palavras com uma surpresa que talvez só um homem inseguro pudesse sentir. Ela havia percebido a minha ausência dentro de um prédio onde nos cruzávamos todos os dias.
Respondi que estava bem, apenas ocupado. Acrescentei uma explicação sobre o fornecedor, porque minha tendência natural era apresentar provas de que nada estava errado.
Elisa respondeu com um desenho horroroso de uma xícara e uma recomendação para que eu comesse alguma coisa.
— Isso é uma ordem? — escrevi.
— É um diagnóstico do seu mau humor — veio a resposta.
Eu ri. O fornecedor continuava atrasado, a instrutora continuava doente e nada de importante tinha sido resolvido por aquela conversa. Mesmo assim, o dia mudou de peso.
Gosto de lembrar daquela tarde porque ela contradiz uma versão simplificada que eu mesmo contei depois: a de que eu passava o tempo inteiro procurando Elisa e ela passava o tempo inteiro tentando me fazer compreender seus limites.
Não foi assim.
Havia semanas em que ela começava a maioria das conversas. Encontrava uma fotografia engraçada e me mandava; lembrava de um assunto que havíamos interrompido; perguntava por uma decisão que eu precisava tomar e, antes que eu respondesse, fazia alguma provocação sobre a minha expressão habitual de homem preocupado com a humanidade.
Também havia dias em que era eu quem a procurava. Às vezes ela estava cansada, e a conversa durava pouco. Às vezes dizia que precisava estar inteira onde estava, e eu tentava respeitar. Depois, em outra noite, um texto dela chegava sem que eu tivesse pedido nada.
Era isso que havia entre nós: movimentos dos dois lados, nem sempre na mesma hora, mas reais.
Certa manhã, ela entrou na minha sala com uma pasta fechada.
— Preciso da sua opinião — anunciou.
— Sobre o quê?
— Sobre uma pessoa que se acha muito inteligente.
— Conheço várias.
— Esta é especialmente convencida.
— Então deve ser eu.
Elisa se sentou na cadeira da frente, rindo.
A pasta continha uma proposta de evento. Passamos vinte minutos discutindo valores, salas, inscrições. Quando terminamos, ela não se levantou imediatamente.
— Agora a parte difícil — disse.
Esperei.
— Você tem ideia de como é irritante sentir saudade de alguém que está a duas portas de distância?
Não respondi de imediato. Eu poderia ter feito graça. Poderia ter perguntado se ela falava de mim. Ela acabara de me oferecer uma frase que não precisava de perícia.
— Tenho — falei. — Principalmente quando essa pessoa aparece com uma pasta para fingir que veio trabalhar.
— Eu vim trabalhar.
— Vinte minutos.
— Bastante produtivos.
— E agora?
Ela apontou para a porta entreaberta.
— Agora volto antes que alguém precise de mim.
Levantou-se. Ao passar pela mesa, tocou de leve na minha mão. Não foi um gesto de cinema. Foi menor e, talvez por isso, mais difícil de esquecer.
Os textos compridos apareciam sem horário fixo.
Às vezes chegavam no meio da tarde, quando uma reunião tinha acabado e eu abria o telefone esperando apenas um aviso. Outras vezes vinham tarde da noite. Não os guardava porque fossem extraordinariamente bem escritos. Guardava porque havia ali o esforço de alguém para me deixar conhecer uma parte de si.
Certa manhã encontrei um texto em que ela contava ter passado a noite pensando na conversa que havíamos deixado inacabada. Não era uma pergunta, nem um pedido. Descrevia o estranhamento de uma pessoa continuar presente no pensamento mesmo quando o dia exige atenção a todo o resto. Eu a havia lembrado antes do café. Ela tinha lembrado de mim depois de apagar a luz.
Naquele instante, a distância entre nossas casas pareceu menor que a distância entre duas cadeiras da empresa. Não fui eu quem lhe pedira aquela declaração. Ela escolhera me contar.
Elisa falava dos próprios receios, do que admirava em mim, da maneira como sua vida parecia ter mudado de assunto sem lhe pedir licença. Por vezes me dizia que desejava uma rotina comigo: não só os momentos excepcionais, mas coisas bobas, como reclamar de um trânsito que não conhecíamos, escolher uma música na estrada ou chegar a uma cidade sem saber onde comer.
Eu devolvia textos ainda maiores. Era uma péssima competição. Quem recebia duas páginas respondia com três, e depois os dois fingíamos surpresa quando a madrugada acabava.
Uma noite, ela escreveu sobre imaginar uma viagem de carro. Disse que provavelmente brigaria comigo pelo trajeto, porque eu transformaria até férias em um plano de logística. Respondi que ela ficaria responsável por decidir onde parar.
— Então a gente nunca chega — escreveu.
— Mas conhece todos os lugares no caminho.
Houve um intervalo. Depois veio outra mensagem, mais curta, dizendo que essa parte parecia boa.
Eu olhava para o telefone e pensava: estamos falando de estrada, mas o que realmente queremos dizer é outra coisa.
E estávamos. Não apenas eu.
4. A hora em que o almoço desaparecia
Capítulo 12 — O almoço que não cabia no relógio
“Queria te encher de beijos e abraços. Só um momento para te sentir pertinho de mim, sem a pressa de voltar.”
— Caio
A primeira semana fora de casa teve uma descoberta desagradável: eu não sabia onde guardara o abridor de latas.
O lugar provisório em que estava morando tinha pratos demais para alguém sozinho e talheres de menos para uma visita. A janela dava para o muro de outro prédio. À noite, eu escutava passos no apartamento de cima e lembrava do barulho familiar dos armários de Teresa. Não era saudade de um casamento inteiro. Era a falta de uma vida que havia se tornado automática até nas pequenas coisas.
De manhã, eu saía cedo para a Casa Norte. Trabalhava. Assinava contratos. Respondia pelo que precisava responder. Não havia qualquer liberdade cinematográfica naquela separação.
Mas, quando chegava perto do meio-dia, alguma coisa mudava no meu corpo.
Eu olhava para o relógio com a expectativa de quem espera o anúncio de uma viagem.
Elisa e eu encontramos um modo de nos ver durante o intervalo do trabalho. O horário não era grande, e por isso precisava ser tratado com a precisão que normalmente eu reservava a coisas muito menos importantes.
Ela saía primeiro algumas vezes. Em outras, eu saía antes. Evitávamos transformar nossa movimentação num assunto da equipe. Nenhuma dessas precauções tornava a situação correta, mas naquela fase nós as confundíamos com uma forma de prudência.
No primeiro dia, havíamos pensado em comer alguma coisa.
Não comemos.
No segundo, comprei dois sanduíches porque achei que precisaríamos aprender com o erro anterior. Os sanduíches ficaram esquecidos até o pão começar a ressecar. Elisa pegou um deles no fim, olhou para o embrulho amassado e me acusou de ser um organizador de almoços particularmente incompetente.
— Você quer abrir uma empresa de refeições invisíveis? — perguntou.
— O produto é a expectativa.
— O cliente passa fome.
— Mas sai satisfeito.
Ela me deu um tapa leve no braço e começou a rir.
Eu gostava da maneira como o riso transformava em cotidiano uma felicidade que deveria ter sido impossível de administrar.
Passamos a brincar que um dia de fato almoçaríamos. A promessa resistiu menos do que imaginávamos. Em certo momento, já não era sequer mencionada.
O tempo tinha outra medida naqueles encontros.
Havia o momento de chegar, ainda com algum assunto do trabalho grudado na roupa. Havia a primeira pausa, quando nos olhávamos de perto e a urgência do dia parecia se retirar para a outra ponta do corredor. E havia aquele trecho da despedida em que o relógio se tornava um inimigo declarado.
Eu conhecia os gestos de Elisa durante as reuniões: a maneira como segurava uma caneta, como franzia a testa antes de discordar, como se endireitava na cadeira ao ter uma ideia. Ali, fora da empresa, ela tinha outra liberdade de movimento. Às vezes conduzia a conversa inteira. Em outras, gostava de me deixar escolher a música, a hora de levantar, o caminho até a janela. Falávamos abertamente do que cada um queria; nada daquela proximidade existia porque um impunha ao outro um papel.
Ela podia tomar a iniciativa de um beijo e, minutos depois, de uma discussão sobre minha terrível escolha de música. Podia me pedir que ficasse perto sem querer dizer uma palavra. Podia dizer não a uma sugestão banal e logo depois inventar a própria.
Não era submissão à minha vida. Era intimidade entre duas pessoas que, naquele espaço, confiavam uma na outra o suficiente para brincar com iniciativa, entrega e desejo.
Eu me sentia escolhido.
5. Os futuros que imaginavam
Capítulo 13 — A vida que continuava lá fora
“O futuro que eu imaginava já não é o mesmo. Agora tem você nele. E outros sonhos.”
— Elisa
A minha mala ficou aberta durante onze dias.
Talvez tenham sido dez. Talvez doze. Não estou contando um fato que tenha registrado no calendário; estou contando a impressão de viver num lugar ao qual eu ainda não tinha coragem de pertencer.
Eu tirava uma camisa, usava, lavava e a colocava de volta na mala. Não ocupei todas as gavetas. Não pendurei os quadros que estavam encostados na parede. Agia como quem havia tomado uma decisão enorme, mas mantinha os objetos preparados para desmenti-la.
Ao mesmo tempo, saía ao meio-dia para encontrar Elisa, e durante aquelas horas conseguia imaginar outra casa com uma nitidez assustadora.
Não era mentira quando eu dizia que queria construir uma vida com ela. Também não era uma verdade completa enquanto eu não soubesse sustentar a primeira consequência daquela escolha.
Elisa falava de futuro com uma leveza que me encantava e, depois, me inquietava.
Numa noite, mandou a fotografia de uma estrada entre montanhas. Não era um lugar onde tivesse estado. Era uma paisagem encontrada por acaso, dessas que se guardam porque parecem prometer uma versão mais bonita da própria vida.
— Você teria coragem de ir sem conhecer o caminho? — perguntou.
— Eu pesquisaria o caminho antes.
— Estragou a pergunta.
— Eu iria com você.
Demorou um instante para responder.
— Isso ficou melhor.
Construíamos esses pequenos futuros com uma intimidade que não se parecia com passatempo. Às vezes ela falava de viagens. Às vezes de uma casa em que ninguém precisaria inventar reuniões para justificar uma ausência. Havia conversas sobre filhos, sobre a possibilidade de começar de outro jeito uma vida que não começara como imaginávamos.
Essas conversas me tocavam num lugar que eu nem sempre mostrava. Eu não tinha apenas desejo de estar com Elisa. Tinha o desejo antigo de uma família que ainda não existia daquela maneira, de uma criança que me obrigasse a aprender um amor sem condições de negociação.
Não ficávamos somente nas imagens bonitas. Uma vez, enquanto esperávamos que a chuva diminuísse, Elisa começou a pensar em voz alta sobre o que precisaria mudar. Perguntou se eu continuaria na Casa Norte, se ela procuraria trabalho em outro lugar, quanto tempo levaria para construir uma rotina menos apertada do que aquela que tínhamos. Falou que sair de casa exigiria conversar com pessoas, organizar dinheiro e suportar dias em que não seria possível voltar atrás com a desculpa de que estávamos apenas assustados.
Eu me lembro da maneira como ouvi: em silêncio, ao contrário do meu costume. Não porque estivesse calculando respostas. Porque, pela primeira vez naquela conversa, o futuro tinha despesas, horários e dificuldades que ela também reconhecia. Não vinha só de um desejo meu.
— Você pensa mesmo nisso tudo? — perguntei.
Elisa me olhou como se eu tivesse feito uma pergunta particularmente tola.
— Se eu não pensasse, não estaria aqui conversando sobre isso.
Depois confessou que às vezes parava de pensar por medo. Eu não discuti esse medo. Conhecia o meu; ele dormia todas as noites no apartamento provisório, ao lado da mala aberta.
Quando ela entrava nesses assuntos por vontade própria, eu não ouvia apenas uma fantasia bonita. Ouvia a possibilidade de algo pelo qual teria de reorganizar toda a minha existência.